Garota exemplar.
Existe um motivo para alguns diretores terem um certo “carimbo” de qualidade. Eles têm sustância nas suas obras e principalmente constância. David Fincher está nesse hall seleto, e eu posso provar.
Garota exemplar, para o grande público, não é tão conhecida ou aclamada. O que é um erro, mas não vou entrar nessa questão. Ele é um Thriller, ou seja, um suspense.
Nos primeiros minutos do filme, Amy, interpretada por Rosamund Pike, desaparece. Seu marido, Nick, interpretado por Ben Affleck, preocupado, busca ajuda das autoridades. Como dito anteriormente, é um suspense, imaginamos que a tal apreensão estará nessa busca de um marido por sua amada esposa. Contudo, nesses primeiros minutos já é mostrada uma certa rusga ou momento conturbado entre o casal. Após os inícios das buscas por Amy, criou-se uma grande repercussão na mídia nacional e na comunidade. Ao mesmo tempo, há várias sucessões de coisas estranhas envolvendo seu marido e sua vida íntima.
Trazendo para a realidade, casos assim tendem, com uma porcentagem até grande, a envolver o marido como culpado. Feminicídio é algo presente na sociedade. O roteiro sabe disso e brinca deliciosamente com tal fato. Nick passa um ar de rancor, uma postura física assustadora enquanto você nota que tem algo sendo escondido. O filme é muito claro nas suas intenções de te fazer duvidar do protagonista masculino.
Pois bem, aí chegamos à mudança do filme. A construção, talvez, de um dos maiores medos de qualquer um. Conhecer ou conviver com sociopata/psicopata.
O plost muda e acompanhamos Amy. Mais viva do que nunca, planejando incriminar seu esposo, por pura vingança. Já que o estado onde moram tem pena de morte, caso alguém seja condenado por assassinato. Admito, eu já estava ciente dessa surpresa do filme, contudo isso não estragou a experiência. Pelo contrário, me fez observar outras coisas, que futuramente vou entrar em detalhes.
O filme se passa entre 2005 e 2012. A falta do mundo hiper-conectado, influencia você a acreditar, pelo menos comigo, que alguém poderia, se estudasse muito, criar um cenário para culpar alguém. Enfim, Amy justifica seus atos dizendo que sim, ela foi assinada. No momento em que se conheceram, ambos eram diferentes. Outras pessoas praticamente. Após perderem seus empregos, Nick, a mãe e Amy dar o dinheiro que tinha investido para seus pais e irem para um lugar mais pacato. Os dois mudam, sua relação se altera, viram algo que zoavam. Duas pessoas que não se falavam, sem desejo, trancados a uma imagem do que já foram um para o outro. Enquanto Amy se sujeitava a coisas, cadê vez menos ela, até a gota d’água sendo o adultério.
Todo o planejamento de Amy dá errado quando ela é roubada e vê-se na situação de pedir ajuda. Coisas acontecem e Amy volta para seu marido toda ensanguentada, após matar quem lhe ajudou. Alegando que tinha sido sequestrada, uma balela. Nick, ao longo do filme, descobre quem é sua esposa. A bela mulher, por sua vez, sempre soube quem era seu companheiro.
Novamente errados, pois esse é um bom roteiro. O suspense, creio eu, se dá pelo fato de existir alguém tão perspicaz e maldoso. Num mundo cada vez mais voltado para a “imagem”, aqueles que sabem manipular, mentir, construir cenários ao bel-prazer. A existência de alguém assim é com certeza aterrorizante. Rosamund Pike demonstra tudo isso, além de controle, sensualidade e instigação do medo como poucas. Incrível. Para mim, o grande destaque de atuação no longa.
Criar holofotes, manter reputação, construir aparências e manter falsas também é o verdadeiro cerne do filme. Posso exemplificar isso pegando uma frase da Amy para o Nick.
— “O momento em que melhor sentiu-se bem consigo mesmo, foi quando tentou ser o homem que me agrada”.
Deixo meus 8.4 a esse filme excelente, outro de David Fincher.
