O Lagosta (2015)
Esse filme é bem estranho (risos). A justificativa para isso, a meu ver, se dá pelo fator realidade aumentada. Realidade? Para aqueles que viram ou não, pode soar esquisito esse adjetivo.
Pois bem… Em um futuro próximo, uma lei proíbe que as pessoas fiquem solteiras. Qualquer homem ou mulher que não estiver em um relacionamento é imediatamente preso e enviado ao Hotel, um lugar onde terá 45 dias para encontrar um parceiro. Caso não encontrem ninguém, essas pessoas são transformadas no animal de sua preferência e soltas no meio da floresta.
Essa é a sinopse do filme, reforçando a divergência de adjetivos que tinha falado anteriormente.
O contexto é de suma importância. “Realidade” a que me apego é nada menos que o dilema social dos solitários com os casais ou a concepção deles. O filme pega essa pequena distorção em nossa sociedade e satiriza em cima dela.
David, interpretado pelo Colin Farrell, acaba de perder sua esposa e parando no tal hotel. No local é oferecido tudo, contanto que a pessoa cumpra o que veio fazer a tempo. Mas a estrutura em si soa superficial, triste, sem o sentimento correto e apressado. Como um aplicativo de relacionamento no formato físico. Os casais são vangloriados, como exemplos a serem seguidos. Entre os hóspedes, há àqueles que temem perder sua humanidade nos últimos dias, então fogem, virando caça para os seus colegas de hotel. E os que têm êxito na fuga viram selvagens, vivendo na floresta com sua “solidão”. Algo importante. Não é falado, mas dá a entender que os relacionamentos só podem dar certo se houver muita similaridade entre ambos. Tanto que há cenas envolvendo esse conceito.
Tudo isso não é palpável, certo? Não tem nada a ver com a nossa realidade, correto? Não. Basta pensar no estigma que pessoas que não se relacionam têm. Alguém com 40 anos e nunca foi casado. Imaginamos os vizinhos falando bem dessa pessoa, muito provavelmente não. Até ocorra algum tipo de suspeita pejorativa, como se fosse um “selvagem”. Fora os aplicativos de relacionamento que já havia falado. Sem contar também que casais têm certo status quo. Basta olhar a importância dos casamentos, locais, planos, estilo de vida e visão parental voltada para isso. Para quem tem tias, como não lembrar do “e as namoradinhas(os)?”
Adiante no filme, David acaba fugindo do hotel após uma tentativa de relacionamento fracassada. Ele acaba indo parar na floresta. Encontrando um grupo de pessoas, logo entende que relações interpessoais são proibidas ali. Obviamente, David acaba se apaixonando por uma selvagem, interpretada por Rachel Weisz.
O “ódio ao casal” existe lá e aqui. Não estranhe ver alguém feliz com um término. Pregando que a eterna solitude é a solução, que a independência é o caminho das pedras. Entretanto, me arrisco a dizer que, se permitir amar alguém, nem uma lei imponente irá forçar todas as pessoas a essa direção. Pois os trajetos para os corações são em formatos diversos e infinitos.
Como comentei outrora, uma sátira, o longa pega e faz uma caricatura desses pequenos dilemas. Extravasando, levando para os extremos para gerar a comédia. Ocasionando cenas de vergonha alheia (risos).
Por fim. A selvagem acaba perdendo a visão, deixando um final aberto. Já que David vai ou não se cegar para acompanhar sua amada, para assim terem mais similaridades. Pois um casal perfeito é isso: igual.
Excelente alegoria, torna o entendimento do filme mais fácil quando se nota isso. Caso não se ligue, com certeza terás dificuldade para compreender a obra. O que pode se dizer um ponto fraco nesse outro ótimo filme do diretor Yorgos Lanthimos.
8.2
